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24.10.10

A Educadora que Mudou o Mapa dos Afetos através do Amor e da Poesia

Este é um Trabalho da Ana da Cruz,Escritora, Tradutora, Agente Sócio-Cultural

As histórias de Sapho, Sócrates, Platão e Aristóteles se confundem, por seu papel inigualável dado à memória na educação.

Fedro:
Mas quem são estes sábios,
onde ouviste discurso melhor do que este?
Sócrates:
No momento, não posso dizê-lo com exatidão,
mas é certo que já escutei coisa melhor,
seja da bela Sapho,
seja do sábio Anacreonte,
ou de algum escritor qualquer.
(Platão, Fedro)

A Arquiteta da Poesia e o Início de uma Revolução nos Costumes entre Casais

No século VII a.C., durante a Antiguidade Clássica Grega, época de célebres poetas e filósofos, entre os intelectuais da realeza, quando os senhores da guerra cultuavam Ares e outros deuses e deusas que lhes pudessem proteger dos inimigos, já que os homens ambicionavam riquezas e conquistas de novas terras, tendo que para isso matarem-se, surge Sapho, uma mulher rica e refinada, precursora de uma revolução na educação, nas letras e nos costumes, sem precedentes, como primeira mulher independente da história, dona da primeira grande escola para mulheres que incluía as letras, primeira grande poeta da humanidade e a primeira reitora.

Sapho ou Psappha, como ela assinava, no dialeto eólico - nasceu entre 630 a 612 a.C. em uma família rica da cidade de Eressos. Ainda criança, mudou-se para a capital Mitilene, um grande pólo cultural na época, capital da ilha de Lesbos. Seu pai, reconhecendo-lhe a inteligência e orgulhoso de sua filha única, ficou com pena de ela, só por ser mulher, não ter direito a um estudo de qualidade e cuidou com zelo de sua educação.

Ainda jovem, foi deportada para a cidade de Pirro, sob a acusação de conspirar contra o ditador Pitaco. Anos mais tarde, quando retornou, ainda temendo que suas palavras influenciassem nas perturbações políticas na ilha, ele novamente a exilou, dessa vez, na Sicília. Lá, conheceu um rico comerciante Kérkilos com quem se casou e teve uma filha, a quem pôs o nome de sua mãe, Kleis. Ele faleceu, deixando-a mãe e viúva cedo, ainda mais rica. Sapho decidiu-se não se casar novamente e volta a Lesbos ainda mais poderosa, decidida a mudar a ordem das coisas.

Sua vida se tornou ainda mais polêmica quando retornou depois dos cinco anos de exílio e se transformou na líder intelectual de Mitilene, quando decidiu a proporcionar as mentes femininas um estudo mais abrangente, fundando uma escola só para moças da realeza. Intencionava mudar o mundo através das mulheres e da valorização do seu amor. A paz seria possível se os maridos se apaixonassem e as mães tivessem conhecimento suficiente para educar seus filhos, e, através deles, influenciar o futuro. Tinha um profundo amor maternal por sua filha Kleis, o se mostra na estrofe:

Tenho uma formosa filha que tem para mima esplendorosa beleza de uma flor de ouro,minha amada Kleis, quem não trocaria por nada,riquezas da Lídia ou a formosa Lesbos.

Sacerdotisa de Afrodite - a deusa do amor, muitos acreditavam que ela a personificava, sendo considerada a mulher mais linda de sua época, tendo nos olhos emanada uma força e um tom de azul incomuns, cabelos violeta (o que também se pode atribuir ao uso da henna) e sorriso de mel. Segundo Giuliana Ragusa, em “Fragmentos de uma Deusa”, através da poesia lírica de Sapho, redimensiona-se a imagem da deusa Afrodite, complexa e multifacetada, percorrendo, além da literatura, a história, a religião, a arqueologia e a iconografia gregas.



Safo, Soma Orlai Petrich, 1855


O distanciamento entre homens e mulheres a incomodava, como as implicações disso na vida que todos levavam: os homens preocupados com a guerra, com comandos e posses, as mulheres sempre sozinhas, tratadas, entre a realeza, como útero dos herdeiros (não era raro que seus filhos homens, que lhes eram arrancados cedo, logo que eles desmamavam, para serem educados para a luta armada e liderança), entre as classes menos abastadas, eram tratadas como escravas servis e animais de procriação, acentuadamente, pela necessidade do trabalho braçal e da reposição populacional constante, dadas as vidas que se perdiam nas guerras que se sucediam, trazendo fome a muitos povos. Por causa disso, tinham uma lei: quando um homem não retornasse ao lar durante 7 (sete) anos, a família podia da-lo como morto e sua esposa poderia se casar novamente. Raríssimos eram os casos dos que sobreviviam e voltavam depois desse marco temporal.

Antes da implantação do seu sistema de educação para mulheres, nas chamadas “escolas para mulheres”, aprendia-se prendas domésticas e também a música, pois era considerado de bom tom que a mulher da realeza pudesse tocar para as visitas de forma a orgulhar seu marido. Em geral, para as mulheres gregas, não havia lugar além do setor doméstico: suas vidas resumiam-se a cuidar da casa e seus homens as viam como seres inferiores a eles. A função era de reprodutora e não de mãe, pois, antes de Sapho, a mulher era considerada apenas como instrumento necessário para perpetuar a família através da linhagem paterna. Na época, nem se considerava que os filhos herdassem qualquer coisa das mães.

Como professora, amada por todas as suas alunas, celebrada e respeitada em toda a Grécia, Sapho acabou representando Sócrates para as jovens mulheres. Enquanto os institutos de ciências domésticas comuns ensinavam que modéstia consiste em manter-se silenciosa, Sapho ensinou a arte e o poder da palavra; que boas maneiras requerem a repressão do movimento, Sapho lhes ensinava a dança e a música; que a "economia doméstica" a torna serva humilde de seu marido, Sapho ensinou a arte de ser amante, como um guia para os rituais do amor. Analisando o currículo de uma escola sáfica, percebe-se que a unidade entre corpo e espírito era mais do que apenas um ideal, mas uma prática.

Sendo devotada à deusa Afrodite, essa influência fez de Sapho uma artista e pedagoga de múltiplas linguagens. Ensinava às suas discípulas (chamadas hetairai = amigas, tratando-as como iguais e não como uma mestra, acima de suas alunas), além do que as demais escolas ensinavam: a leitura, a escrita – e nessa, a poesia, também as artes da sedução, como a dança e os detalhes da postura, do olhar, do perfume, o toque... o conjunto do ambiente em que a mulher devia dominar para reinar em sua família. As mulheres que foram suas discípulas tinham-lhe devoção e os homens que começaram a ver em suas esposas qualidades e por elas se enamorarem, também tinham-lhe admiração. Em meio a tantos inimigos, eram muitos e poderosos os que lhe eram gratos e protegiam-na.

Orgulhosa do prodígio de suas alunas, observando nas mulheres a inteligência e a grandeza dos sentimentos somada à agradabilidade do convívio, Sapho passou a ter sua vida sexual somente dedicada às mulheres, o que também lhe garantia não perder a independência que adquirira – já que cada vez mais ganhava dinheiro e prestígio, e também por sua crença pessoal de que o amor devia ser o caminho natural ao sexo – e não somente a perpetuação da espécie – até mesmo independendo desse fator.

Não foi discriminada por esse motivo, pois não era considerado que a afetividade e troca de carícias entre mulheres pudesse ser uma relação social de acasalamento resultando numa vida a duas (como é a tendência do homossexualismo feminino atual), mas um preparo para posterior encontro de uma mulher com seu homem, tornando-a mais hábil para que dela, esse se agradasse, favorecendo aos dois, pois eis que o homem se encantava de sua mulher e, assim, essa era elevada da condição comum das mulheres de sua época. Além disso, sua conduta era associada à deusa Afrodite, por sua inteligência e astúcia, pela beleza inigualável, sendo ela mesma considerada um símbolo da deusa do amor, sua sexualidade livre não foi bem aceita em muitas mentes castradas e racionais do período, mas isso não impediu que sua popularidade se estendesse, com suas ideias causando curiosidade e surpresa, influenciando também os costumes de toda a Grécia e de outros povos da Antiguidade Clássica.

Como poetisa, Sapho escreveu nove livros de odes, elegias, hinos e cânticos nupciais, mas apenas alguns fragmentos escaparam e chegaram até os dias atuais (inclusive uma ode completa e quatro estrofes de outra) - em dialeto Eólico, razão porque foram preservados por gramáticos para estudos e exemplo desse dialeto do Grego. Atrevida, experimentou vários tipos de métrica e inaugurou temas que, até então, não eram matéria poética. A ela, devem-se os versos sáficos - os decassílabos com tônica na quarta, oitava e décima sílabas. Foi também a precursora do lirismo poético, onde o Eu coloca seus sentimentos, característica que lhe rendeu o título de "a primeira lírica dos tempos". O assunto principal de seus poemas sempre foi o amor, escrito com naturalidade e simplicidade, muitas vezes, revelado com ternura, outras, com paixão, incluindo sentimentos como a tristeza e o medo, um dos motivos porque seus poemas foram considerados “suspeitos”, já que foi ela a primeira pessoa a escrever poesias com eu-lírico falando dos seus sentimentos diante do mundo e da pessoa amada, mas seu lado mais polêmico foi a inauguração da chamada poesia erótica. O seu poema mais celebrado, a maioria dos gregos sabia de cor cada palavra. A seguir, duas versões:

"Igual aos deuses esse homem me parece:
diante de ti sentado, e tão próximo...
ouve a doçura da sua voz,

e o teu riso claro e solto.
Pobre de mim;
meu coração bate de assustado.

Num ápice te vejo
e a voz se me vai; a língua paralisa;
um arrepio de fogo, fugaz, fino,corre-me a carne;
enevoados os olhos; tontos os ouvidos.

O suor me toma,em tremor, me prende.
Mais verde sou do que uma erva,
e de mim não parece a morte longe.
E de um espaço limite estreito,intermediário, grito!
Mas resisto.Mesmo a essa angústia de amor" **

Contemplo Como o Igual dos Próprios Deuses

Contemplo como o igual dos próprios deuses
esse homem que sentado à tua frente
escuta assim de perto quando falas
com tal doçura,

e ris cheia de graça. Mal te vejo
o coração se agita no meu peito,
do fundo da garganta
já não saia minha voz,

a língua como que se parte, corre
um tênue fogo sob a minha pele,
os olhos deixam de enxergar,
os meus ouvidos zumbem,

e banho-me de suor, e tremo toda,
e logo fico verde como as ervas,
e pouco falta para que eu não morra
ou enlouqueça.

Suas palavras eram tão eloquentes e a sua descrição das emoções tão detalhada que médicos da época chegavam a diagnósticos, utilizando-as como referência. “Erasístrato percebeu que a presença de outras mulheres não produzia efeito algum nele. Mas quando Estratonice aparecia, só ou em companhia de Seleuco, para vê-lo, Erasístrato observava em si todos os sintomas famosos de Sapho: sua voz mal se articulava. Seu rosto se ruborizava. Um suor súbito irrompia através de sua pele. Os batimentos do coração se faziam irregulares e violentos. Incapaz de tolerar o excesso de sua própria paixão, ele tombava em estado de desmaio, de prostração, de palidez.”

Sapho, quer pela condição aristocrática, quer pela sua inteligência que não passava despercebida quanto pelo amor e admiração que seu pai sempre lhe teve, possuiu, desde cedo, um pouco mais de direitos e foi assim que influenciou filósofos, artistas e relações de família em todas as gerações posteriores, mesmo sendo tão perseguida e tendo quase toda obra queimada. A memória que guardaram dela era ainda maior que seus escritos. Terminou seus dias refugiada na Itália, onde também possuía amigos e propriedades, dadas às perseguições de seus inimigos, que a viam como um perigo à ordem vigente das coisas. Acredita-se, por seus fragmentos, que morreu em idade avançada. Veja essa tradução de um trecho de seu poema.

Vós, meninas, entusiasmem-se com os carinhos os presentes
Das musas de seios perfumados e com a lira clara e melodiosa:
Mas o meu outrora macio corpo, agora velho
Enrijeceu; meus cabelos tornaram-se brancos, em vez de negros.

Aristóteles (século IV a.C.) chegou em Lesbos fugido, pois teve seu amigo Hermias traído e entregue aos persas que o crucificaram - e durante mais de cinco foi professor professor na Ilha, dando lições e trabalhando com as suas obras. A visão de Aristóteles era de um mundo exclusivamente masculino, um presente dado ao homem que tem em si e no universo uma possibilidade de conquista permanente, enquanto a mulher era considerada um animal de procriação, como mostram seus dizeres - “A mulher é o "homem incompleto", ser passivo e receptor (pelo contrário, o homem é o activo e o dador). A mulher recebe e conserva a semente, o homem é o semeador. O homem dá a forma, a mulher, a matéria. A sua única função é a reprodução”.

A reação de Aristótoles no contato com a obra sáfica foi difícil, pois além da comprovação da existência de Sapho já colocar em dúvida muito do que ele defendia, era considerado que a obra dela superava a dele em relevância - pregava amor e paz pela delícia dos amantes estarem juntos e essa possibilidade viria do encontro com a mulher, sendo o seu amor a maior conquista. Em uma época quando a poesia era tão somente um meio de transmitir fatos históricos e mitos coletivos, a descrição de Sapho de seus sentimentos pessoais parecia-lhe uma audácia sem precedentes, mas ao mesmo tempo impressionante pela poetiza ser uma das primeiras pessoas a descrever em forma poética uma emoção profundamente sentida, o que causava a todos que a liam profunda repercussão. Denunciando que a obra corromperia os costumes, Aristóteles conseguiu que fosse confiscada e confiada a ele para estudo, mas posteriormente, ele queimou seus trabalhos mais significativos, devido ao ciúme e ódio que dele tomou conta, tamanha a admiração e influência que eles causavam a outros que tiveram acesso, ficando apenas poesias.

Fato é que mais que seu método educacional “in loco”, na ilha de Lesbos, sua poesia foi muito apreciada em toda a Antiguidade Clássica Greco-Romana, estendendo-se até os dias atuais, numa repercussão sem precedentes, influenciando os costumes. Na época de Cristo, já se nota a repercussão de suas ideias, pois era notória a ascendência da mulher que, diante do marido e dentro da família, havia crescido, se fosse feita uma comparação em relação da poetiza, seis séculos anteriores.

Jaa Torrano, em "Três Poemas — Safo de Lesbos" - lembra que se na poesia de Sapho não encontramos o amor devotado a um homem, era porque este amor ainda não existia para a mulher grega, até então, mas ela propõe uma nova era com a manifestação do amor concebida através de uma entrega e uma vivificação junto à sensualidade feminina. Devido a haver uma exclusão das mulheres no mundo dos homens clássicos, o lesbianismo sáfico não contradiz o Mito de Afrodite. Sem dúvida, Sapho ensinou as mulheres e delas não se desviou, quando sua influência e celebridade atingiram o mundo masculino. Não era uma recusa aos homens, mas um não a suprimir qualquer preferência sexual. Os valores que se opõem a Sapho e a Afrodite não são aqueles do amor heterosexual, mas sim, aqueles da ausência sexual – já que os homens abandonavam suas mulheres para as guerras - que tinham a duração de anos - e quando as buscavam era para ter filhos, não tendo com elas relações afetivas com buscas sexuais constantes, já a que a afetividade masculina era dedicada somente aos homens.

Somente os mais desatentos enxergaram na poesia de Sapho apenas o argumento lésbico. Enquanto Sócrates e Platão nitidamente valorizaram apenas aqueles de seu próprio sexo, e a filosofia de ambos é totalmente masculina, o trabalho de Sapho é universal, pois foi a primeira pessoa a defender abertamente o valor da afetividade feminina: 1) o amor entre homens e mulheres; 2) o amor entre duas mulheres; e 3) a pureza e a dedicação do amor da mãe, mais a necessidade do acompanhamento materno na formação e educação dos filhos.

Assim, enquanto o Eros que inspirou os filósofos da era clássica apenas levava em consideração o amor homossexual masculino, pois o afetivo-sexual era um valor somente entre homens, Afrodite e Sapho estendiam sua influência às mulheres, mas não excluíam os homens, como uma opção válida no mundo feminino. Dessa forma, o mito de Afrodite e a pedagogia de Sapho incluíam a mulher como ser afetivo-sexual com os mesmos direitos e também unificavam o masculino e o feminino, numa proposta de heteroerotismo, enquanto o erotismo dos filósofos clássicos anteriores incluíam unicamente a relação entre homens e os separava do mundo das mulheres.

Impressões sobre Sapho

Segundo o filósofo Máximo de Tiro, Século II d.c, tanto Sapho quanto Sócrates tinham obras de semelhante linha de pensamento, embora tivessem vivido em séculos distintos, com a diferença que ao versar sobre o amor, Sócrates falava do homem para o homem, enquanto Sapho realçava as qualidades femininas como ser que doa o amor, que gera por amor, tirando-as, na sua obra, da condição de seres menores, trazendo-as para a condição de seres de igual valor, com luz própria e capazes de nobres ideais. Para se entender como as mulheres eram refletidas antes da escolástica sáfica, veja-se um bom exemplo nas palavras de Pitágoras “existe um princípio bom que gerou a ordem, a luz e o homem; há um princípio mau que gerou o caos, as trevas e a mulher”. Apesar de considerado polêmico, seu trabalho foi reconhecido como de valor inestimável e sua beleza e graciosidade como mulher era cantada pelas gerações posteriores até mesmo pelos mais renomados como Sócrates e Platão, um dos seus maiores admiradores, a ver:




Sapho: século XIX (1819-1820)

Coleção de Tancredi Falletti di Barolo.

Desta Sapho viril, que foi amante e poeta,
Mais bela do que Vênus pelas tristes cores!
O olho do azul sucumbe ao olho que marcheta
O círculo de treva estriado pelas dores
Desta Sapho viril, que foi amante e poeta!

Mais bela do que Vênus sobre o mundo erguida,
A derramar os dons da paz de que partilha
E a flama de uma idade em áurea luz tecida
No velho Oceano pasmo aos pés de sua filha;
Mais bela do que Vênus sobre o mundo erguida!

A poetiza influenciou e foi citada por muitos poetas da Antologia Grega e outros, como "Longinos", no tratado sobre o Sublime. Foi imitada por Catulo na formação de suas estrofes, em seu poema 51 (Ille me par esse deo videtur). Nas suas Odes II, xiii, 24-25, e IV, ix, 11-12 (Vivuntque commissi calores Aeoliae fidibus puellae), Horácio refere-se a ela. Em suas Heroides, Ovídio escreveu uma epístola fictícia de Sapho a Fáon. Sapho inspirou também muitos poetas ingleses de renome, como Frederick Tennyson e Swinburne, em "Anactória".

Para Anactória

A mais bela coisa deste mundo
para alguns são soldados a marchar,
para outros uma frota; para mim
é a minha bem-querida.

Fácil é dá-lo a compreender a todos:
Helena, a sem igual em formosura,
achou que o destruidor da honra de Tróia
era o melhor dos homens,

e assim não se deteve a cogitar
em sua filha nem nos pais queridos:
o Amor a seduziu e longe a fez
ceder o coração.

Dobrar mulher não custa, se ela pensa
por alto no que é próximo e querido.
Oh não me esqueças, Anactória, nem
aquela que partiu:

prefiro o doce ruído de seus passos
e o brilho de seu rosto a ver os carros
e os soldados da Lídia combatendo
cobertos de armadura.

Sua beleza e talentos eram cantados em verso e em prosa. Para o poeta Alceu, Sapho era aquela de “cabelos violetas e sorriso de mel.” Plutarco a chamou de “A Bela”. Estrabão escrevera que "Sapho era maravilhosa pois em todos os tempos que temos conhecimento não sei de outra mulher que a ela se tenha comparado na beleza, e ainda que de leve, em matéria de talento poético."

Há quem afirme serem nove as musas. Que erro!
Pois não vêem que Sapho de Lesbos é a décima?
— Platão

Sapho foi aceita como parte do grupo chamado "Nove Poetas Líricos" - os outros eram: Álcman, Alceu, Estesicoro, Ibico, Anacreonte, Simonides, Píndaro e Baquilides. Entretanto, por outros ainda, recebeu o título de A Inigualável, pois "assim como Homero era conhecido como O Poeta, Sapho era conhecida como A Poetisa", sendo ambos considerados os maiores poetas de todos os tempos.

Excetides entoou um canto de louvor a Sapho para seu tio Sólon, e ele pediu que o moço o ensinasse. Perguntado para quê queria tal coisa, o célebre jurista respondeu: "Quero aprendê-lo, e depois morrer!"

A Herança Sáfica

Na Idade Média, mais de 15 séculos depois de si, Sapho ainda influenciava o mundo, durante o surgimento da concepção do amor platônico do trovadorismo, onde o mundo masculino, pela primeira vez, encontrará a manifestação de um eu-lírico amoroso e dedicado, próximo ao amor da poesia de Sapho. Esse fato que fez com que os olhares se voltassem, agora, ao conjunto de seus poemas que sofreu perseguição, dessa vez, pelo conteúdo erótico, e a maior parte foi queimada em Roma, em 1073, por ordem de Gregório VII. Apesar de todas as tentativas de apagamento, percebe-se que sua influência na poesia se estendeu mais acentuada até o romantismo, mas Sapho chega até nossos dias, tanto na poesia, quanto nos mais variadas áreas humanas.

Nota-se que seu trabalho influenciou a mudança da educação de mulheres, mais pronunciadamente, até de fins do século XVII, quando as escolas reservadas à educação de jovens mulheres passam a ensinar às suas alunas mais que prendas domésticas e a servilidade, agregando, agora dentro do campo teórico, temáticas como educação sexual, o preparo para ser uma mãe educadora, entre outros, uma vez que a partir do século XVIII, houve um avanço gradativo na consideração do papel desempenhado por homens e mulheres e já no XIX, o espaço escolar já era comum e com ensino igual para homens e mulheres, em vários países.

A filosofia e a psicologia que chegam até os nossos dias, herdaram de Sapho um dos seus mais importantes pontos de estudo, pois algumas centenas de anos antes do "Eu" ser objeto dos filósofos, o "Eu" sáfico já existia complexo, sendo pessoal e universal, como se pode comprovar nos fragmentos que sobraram de seus poemas, escritos na primeira pessoa, onde a poetiza descreve uma realidade mais subjetiva do que objetiva - sem a objetividade daquele que observa e deduz de um ponto de vista "científico" ou externo, como era comum aos poetas e filósofos que a predecederam e contemporâneos.

Personificando Afrodite, Sapho foi a primeira pessoa que em si mesma sente aquilo que inspira nos outros, tudo o que falava era a partir de sua própria experiência, num pragmatismo pessoal, motivo por que sua poesia é um ponto decisivo na história da consciência, já que explora domínios do subjetivismo previamente desconhecidos – sendo precursora do chamado “conhecimento de si mesmo” ou autoconhecimento.


Escultura de Dannecker, 1800


Se formos analisar a predisposição mais ampla de sua obra, ainda que a mesma não tivesse sido influenciada por uma visão apocalíptica bíblica e a busca dos 1000 anos de paz, pois ainda não tinham sido escritas, já Sapho que precede em, aproxidamente, 600 anos a Era Cristã. Há 2600 anos atrás, o seu sonho era semelhante, pois propunha a troca do domínio do Eros e Ares simbolizados pelas imagens da cobra e das armas que representavam o sexo e a força no domínio da mulher e do mundo, pela maçã que simboliza o afeto e docilidade que uma mulher pode ter, se conquistada pelo carinho e pelo amor, havendo assim a concordância e a paz entre homens e mulheres, numa convivência amorosa e/ou amistosa, que a felicidade fosse a conquista maior buscada pelas pessoas, deixando as armas que matam de lado, dedicando-se ao trabalho que alimenta, ao prazer do encontro com o ser amado, à família e aos amigos.

Com a abertura do mundo às mulheres, depois da segunda guerra mundial, quando - por falta de mão de obra masculina - foram contratadas para as indústrias a fim de sustentar o mundo em período de luta sangrenta, criar seus filhos enquanto esperavam o retorno dos maridos e parentes, dando condições de sustentação à vida e continuação do desenvolvimento, o amor da mulher continua ensinando e abrindo mentes.

Enquanto para uma mulher apaixonada não importa quem é mais rico ou mais pobre, mais bonito ou mais feio, mais alto ou mais baixo, mais inteligente ou mais estulto, importa que ela ame; para o homem ainda se nota que importa sentir-se superior em alguma coisa – há um medo do sentimento de ser igual à sua companheira que já lhe causa incômodo e chega ao pânico dela o superar em alguma coisa o que poderia faze-lo se sentir inferior. Nota-se que mulheres que herdam grandes fortunas e ricas empresárias que se casam, caso não incumbam seus maridos de cargos da gerência de seus negócios – caso eles não estejam no mesmo patamar social delas e também tenham suas empresas – a tendência é o casamento falir e passar por momentos de violência doméstica. Outra pontuação que se faz é o de mulheres notoriamente inteligentes, o interessante é que possam formar casal com um homem a quem admirem também pela mesma qualidade, visto os casamentos desnivelados quer pelo nível cultural, quer por sua postura diante do mundo, são domesticamente conturbados por crises que se seguem até a separação ou por toda vida (caso sua opção sexual seja heteroafetiva).

Na realidade brasileira, a psicologia que compreende a terapia de casais atenta para o fato da necessidade de afetividade e atenção entre os pares, para diminuição das crises familiares e das crises existenciais particulares de cada pessoa. A sociologia e a sexologia já compreendem o estudo dos casais que formam família com filhos, dos casais homossexuais masculinos e dos casais homossexuais femininos, como formas de distintas práticas de acasalamento e opções de vida entre seres humanos adultos, influenciando novas legislações e novas pesquisas no campo do comportamento. Em alguns países, com grande densidade demográfica, não por motivos das emoções humanas, mas pela praticidade de gestão, essa nova visão é bem-vinda para diminuição da taxa de natalidade.

Como toda época tem seus mártires e heróis, Beckham é o símbolo do novo homem, que se arruma e se perfuma para ser mais apreciado por sua mulher, assim como ela o faz por ele. Sensível, a trata como igual a si, tem-lhe adoração e por ela é adorado. Sonho de milhões de mulheres que desejariam trocar de lugar com ela, de bom grado, ele dedica-se a família quase todo o tempo livre. Quando saem de férias e nas badalações os dois levam um ao outro, encantados da companhia e por terem-se. Vale também a menção de Patrick Swayze e os brasileiros Tony Ramos, Xororó e Zezé de Camargo.

Referências
P. Alvim. (Trad.) Safo de Lesbos. São Paulo: Ars Poetica, 1992.
Antunes, A.A. Safo: tudo que restou. Além Paraíba (MG): Interior, 1987.
Jaa Torrano. Três Poemas - Safo de Lesbos. Ed. Ibis Libris, 2009.
Joaquim Brasil Fontes. Eros, tecelão de mitos: a poesia de Safo de Lesbos. Iluminuras, 2003
Giuliana Ragusa. Fragmentos de uma Deusa. A representação de Afrodite na lírica de Safo. Unicamp, 2005.
** Pagan Meditations - The words of Afrodite, Artemis and Hestia - Guelti Paris, Tentáculo (Tradução Nokhooja)


Ilustrações e poemas:
http://www.starnews2001.com.br/safo.html

Outras Fontes:
http://pt.wikipedia.org/wiki/Safo
http://www.infopedia.pt/$ilha-de-lesbos
http://www.brasilescola.com/biografia/safo-lesbos.htm
http://www.nerdssomosnozes.com/2009/06/alma-mater-2-safo-de-lesbos.html
http://psicosimbologia.blogspot.com/2010/04/501-grandes-escritores-safo.html

Ana da Cruz. A educadora que Mudou o Mapa dos Afetos através do Amor e da Poesia. Mural dos Escritores, 21/10/2010.


***
Ana da Cruz - - - Escritora, Tradutora, Agente Sócio-Cultural
CAPPAZ Confraria Artistas e Poetas pela Paz http://www.cappaz.com.br/anacruz.htm
Poetas del Mundo http://www.poetasdelmundo.com/verInfo_america.asp?ID=5065
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3 Comentários:

  • Ana querida
    é uma honra trazer para publicar no rebate trabalhos tão bons,que
    realmente acrescenta para a Cultura
    valores tão consistentes e interessantes,Beijos Dora

    Por Blogger Dora Dimolitsas, às 2:10 AM  

  • Dora

    que riqueza

    adorei to lendo aos poucos

    adorei muito, gosto muito destas culturas.......

    Por Blogger Paola Vannucci, às 3:17 PM  

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